“FORÇA DA IMAGINAÇÃO, VAI LÁ”

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Artigo exclusivo de Zé Pedro Antunes, professor de literatura alemã da Unesp Araraquara, para o Jornal A Comarca.

 

Cántame

 


‘Força da imaginação, vai lá’


 

| Zé Pedro Antunes

 

Por que não dizer da perturbação que me toma de assalto ao emitir opinião sobre o que quer que seja. Uma conhecida, uma vez inventou uma fórmula sucinta: “Gosto, apenas gosto”. E garante que funciona, basta uma deslavada cara de conteúdo. “Aquele que pensa”, como se lê em Brecht, “não usa nem uma luz a mais, nem um pedaço de pão a mais, nem uma frase a mais”. Continuo tentando.

Em ‘Cántame’, foram tantos os momentos em que me vi à beira de um soluço. Sabe aquele nó na garganta? Um professor de redação que tive costumava falar em “arrepio estético”. Falo de transbordamentos que nada têm a ver com sentimentalismos. O nó na garganta tem a ver com o que se materializa em arte em nossa presença. Pois me digam se não emociona, se não arrepia ver cada um desses meus amigos de muito antes, inibições e entraves perdidos na distância juntamente com imposições do meio ou de um suposto destino que lhes coubesse, a se entregar por inteiro à representação.

No início, foi como se no palco as pessoas se multiplicassem, pudessem não vir a caber mais nem no tablado nem em si mesmas. Aí desviei o olhar para a bela peça que se via pendurada acima de todas aquelas cabeças poderosamente iluminadas e vi que era o espelho do que se movia ali abaixo, do que nos comovia no silêncio que se fazia ainda mais abaixo. Tratei então de me fi xar nas letras das canções, queria memorizar, selecionar, guardar alguns versos que me pudessem guiar no aperto de traduzir em palavras o que em palavras não cabe. Mas vi que teria tantos fi os soltos quantas eram as sombras a cruzar a boca de cena e quantos fossem os objetos a formar o centro do que julguei desde sempre existente lá no alto, obra de um só tapeceiro inspirado. Ao final, soube e vi que ali se juntavam os objetos guardados por cada um dos integrantes do grupo, inventário da memória afetiva desses “25 anos de existência e cantoria”, repertório de coisas paralelo ao repertório de canções e de sentimentos teatralizados.

E veio então uma canção de todo inesperada: ‘Abri a porta’. E era eu de volta no tempo, tentando saber como viera ela a ter conosco ali, tão coberta pelo pó da longa estrada. Depois de uma série de canções extremadas e contundentes, o baiãozinho estava a nos dizer que também tem que haver espaço para o contentamento mais brejeiro, para o assaz interioranamente nosso. Outro momento desses viria com o samba rasgado (‘Sonho Meu’ e ‘Força da Imaginação’), o uníssono a se afirmar em meio às elaboradas harmonizações costumeiras.

Escrevo com a impressão de já tudo ter dito e escrito sobre o Coro e Osso, nessa sua prodigiosa história que me tocou por sorte acompanhar tantas vezes tão de perto. Impressão de já ter rasgado toda a seda que houvesse por rasgar. E com a certeza de que eles já se encontram muito além do que um espectador como eu ainda possa dizer sobre o que fazem.

“Deve haver alguma forma de emoção que ainda não foi catalogada”, registrava um escritor austríaco em seu diário, para completar dizendo que essa é a nossa esperança. Num momento em que se comenta sobre o fim do ciclo das canções, em que tanta coisa sem graça nos rodeia e ameaça, penso que, enquanto o Coro e Osso seguir cantando, haverá sempre uma luz “al outro lado del río”, e os nossos remos seguirão “clavados nel água”. Sigo feliz com o Coro e Osso a vasculhar o baú dos nossos guardados mais íntimos, das nossas emoções mais profundas e duradouras, e a traduzir em cena uma certeza inabalável: “O que a mão ainda não toca / Coração um dia alcança / Força da imaginação, vai lá”.

 

Zé Pedro Antunes é professor de literatura alemã na Unesp-Araraquara

 


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